Dr. House – Verdadeira História



Por impulso de bravos e já fraternos amigos, fui instado a revelar esta pequena e dramática estória da vida de um homem que um dia jurou honrar Hipócrates.

O médico que vai fazendo as delícias dos seus fãs, nas noites de quinta-feira, na TVI, trocou, nos seus tempos de vida universitária, a John Hopkins Medical School, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Aos dezassete anos, fez-se embarcadiço num arrastão de pesca da Nova Inglaterra – um tal de Andrea Gail (mais tarde naufragado, em jeito de história trágica) – tendo aportado nos Açores nos idos de 1969.

Segundo as crónicas e as plaquetes do seu carro de quarto-anista – carro nº 19 “Sem Remédio”, com muita cerveja pilsen -, o eméritoDr. House terá decidido rumar a terras lusitanas para cursar o que ele defendia ser a “Verdadeira Medicina”.

Muito antes de Bolonha, a FMUC seria, para este clínico, o verdadeiro Liceu Aristotélico, onde, com método, ordem e muito estudo, se formavam os melhores médicos, os verdadeiros profissionais, peritos nos puzzles médicos e na concretização dos melhores diagnósticos – tudo aspectos onde ele próprio é hoje um mestre.

O seu percurso universitário encontra-se repleto daquelas peripécias que apenas nesta cidade dos estudantes podem ser vividas.

Desde as recitativas missas nocturnas, nas escadas da Sé Velha, tendo por fiel companheira uma bela garrafa d’água “Fastio” ou “Caramulo” de litro e meio cheia do gostoso “traçado” do Pratas, até às serenatas cantadas por esconças ruas dos Olivais – dedicadas a rosáceas e trigueiras tricanas, por quem o seu coração de breve marinheiro ia batendo – Dr. House, na altura conhecido pelos seus pares como o Zé Pesca (em virtude de, por um lado, estar sempre a falar da sua curta experiência, junto do mestre Clooney, nas artes da apanha da sardinha do Atlântico Norte, e de, por outro, querer sempre responder a todas as perguntas formuladas pelos seus professores), Dr. House, dizíamos, teve uma vida de boémia preenchida.

Comensal na República dos Kágados e residente num quarto junto ao Quebra-Costas, House gostava também daqueles pequenos prazeres que passam por ouvir uma boa Canção de Coimbra no silêncio de uma noite de exames de Anatomia I e II.

Na verdade, terá sido em virtude dessa mesma vida nocturna descontraída e levada em jeito brioso, fiel aos mais rigoros valores da Praxe Académica, que ele foi vítima do acidente causador do seu handicap mais característico.

Ora, rezam as crónicas que, em noites vespertinas à Queima das Fitas onde se tornaria estudante finalista e cartolado, House acedeu ao convite de alguns veteranos para ingressar na maior troupe do ano que, nessa altura, se iria formar, espalhando o terror por alguns incautos caloiros que esperavam ter o pior da sua triste – mas também garbosa -, existência atingido o seu termo.

À meia-noite, junto à Porta Férrea da Faculdade de Direito, lá estava ele, um dos primeiros a chegar, com aquele brilho nos olhos, próprio de alguém que vivia com entusiasmo todos estes pedaços de uma existência que sempre ficaria na sua memória como um tempo fora do tempo.

Passados cinco minutos, mercê do seu espírito solícito e cheio de ideias que, segundo ele próprio defendia, “tinham imensa piada” (coisas como formar trupe e sair dali a pé-coxinho), foi mandado calar pelo chefe de troupe.

“Oh Zé Pesca, isto é para ser feito com alguma sobriedade, pá!” – atirou-lhe o bom do Tomásio, veterano de dez matrículas como escolar de leis.

Troupe formada, House eufórico procurava, cantalorando baixinho temas da sua terra natal, tais como aquela muito gira do “Old MacDonald had a Farm”, entrar naquele espírito que tanto o fascinava e de que tanto queria fazer parte: sim, ele queria fazer parte do grupo!

Enfim…

Começaram por descer, em passo veloz, a rua fronteira ao Museu Machado de Castro, gritando os típicos impropérios na passagem junto à República dos Corsários.

De súbito, avistaram um rapaz espigadote, junto da tasca do Augusto, que o Tó Luís identificou como sendo caloiro do seu curso – Estudos Portugueses e Clássicos, ou coisa do género (Letras, para todos os efeitos…).

O olhar de pânico do petiz foi confirmado pelo pigarreio de angústia. Seria, pois, naquela noite que, coitado dele, ia perder aquele seu frondoso e longo cabelo que fazia os encantos de todas as moças de sua aldeia, quando o viam actuar no grupo de baile de que era organista?

Ao ter desatado a correr, a troupe de House lançou-se na feroz perseguição. House apenas queria que o chefe decretasse um Ad Libitum, sem apelo nem agravo!

O som das solas dos negros sapatos fazia-se ouvir no empedrado da calçada da descedente Padre António Vieira.

A correria era alucinante! Alguns elementos iam escorregando, levantando-se logo de seguida, sem vacilar.

House empunhava, orgulhoso, a tesoura que lhe tinha sido passada pelo Gomes que já começava a não aguentar o ritmo.

“Estou quase a apanhar-te, caloiro! Estou quase…!” – ia gritando, abafado pela capa negra que lhe cobria o rosto.

Nisto, Maria Rita, estudante de enfermagem, um pouco stressada e já bem disposta, por ocasião da festa de aquecimento para as noites do parque, que estava a dar no seu t1, arrendado a uma bonifácea senhora funcionária dos correios já aposentada (e que a tinha na conta de “menina”, conforme ao anúncio afixado nas cantinas), Maria Rita, dizíamos, numa gritaria quasi-orgásmica, é acometida de um sentimento envagelizante.

Isto porquê?

Decide despejar a sua vodka de melão à rua, nessa tentativa filantrópica de baptizar todos esses trovadores que por ali, julgava ela, iam passando para a ver.

O piso tornou-se molhado. Pouco molhado, mas ainda assim…

O caloiro, ofegante, só pensava em chegar à benemérita protecção do seu enfeminado padrinho que se encontrava na Secção de Badmington da Associação Académica, ali mesmo ao virar.

House continuava a sua correria, sem qualquer cuidado. Escorrega na ora pia baptismal de Maria – uma poia de canixe, empapada pela vodka.

Nisto, há algo que lhe sai debaixo dos pés… Sente-se a cair! O caloiro a escapulir-se, a tesoura a bater-lhe na testa.

Acto contínuo, todos os seus companheiros se abeiram dele. O estado do nosso doutor não é famoso. As dores no joelho são lacinantes.

Tinha deslocado e esmagado uma rótula.

Maria Rita ri-se como uma perdida.

Ninguém diz nada até que chega Tomásio.

“ZÉ, TU PÁ… SÓ ESTÁS BEM É EM CASA!!! IN’ DA’ HOUSE, TÁS A OUVIR? 

É o que faz trazer gajos das medicinas, pá!!!”

A troupe foi desmantelada ali mesmo.

House foi encaminhado aos Huc, onde terá sido operado nessa mesma noite.

Na noite da Serenata, já Zé Pesca era conhecido por House, sem uma rótula e com uma canadiana.

Um caramujo, que não sairia senão à porta, para escutar a música que tanto amava.

House formou-se nesse ano e rumou a terras do Tio Sam. Côxo, mas Feliz. Em Coimbra tinha vivido!

Advertência: O Dr. House não está protocolado com nenhum dos sub-sistemas sociais do Serviço Nacional de Saúde português (ADSE, Caixas de Previdência ou Serviços Sociais do Ministério da Justiça)

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